Velhice & Psicologia – Reflexões PSIs

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Por Débora Porto

Imagine que você está no consultório e marca um novo paciente, 70 anos, para o primeiro atendimento. À primeira vista, o fator idade (velhice) pode passar despercebido por muitos psicólogos. Isso porque tendemos a considerá-lo um adulto que chegou para o atendimento, ainda que, racionalmente, o chame de idoso. Mas porque, então, isso ocorre?

Por muito tempo a velhice foi tratada como tabu, e/ou de forma simplificada. Isso porque o estar velho trazia a ideia de inutilidade, finitude, etc. Por outro lado, considerava que esta seria a fase em que se alcançava o ápice da sabedoria. Garantindo assim que eles exercessem uma função no mundo. Muitas eram as impressões acerca do idoso, mas pouco se falava sobre que momento da vida seria esse e, muito menos, perguntavam a eles o que era ser idoso.

Chegamos, então, ao ponto chave: século XXI, novo milênio e uma nova realidade – ESTAMOS ENVELHECENDO. As famílias não são mais tão numerosas e entidades como a ONU começam a falar em inversão de pirâmide etária. Ou seja, a população chega a idades mais avançadas, mas não há nascimentos na mesma proporção. E agora?

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PRECISAMOS FALAR SOBRE VELHICE

Não dava mais pra deixar as coisas irem acontecendo de qualquer jeito e não se ocupar em pensar a pessoa idosa. Com o avanço do saneamento básico, acesso à informação, etc. foi possível erradicar e tratar diversas doenças aumentando a expectativa de vida.

Dizer que as pessoas estão envelhecendo, não quer dizer que isto está ocorrendo com qualidade. A partir dessa idéia, podemos ver políticas públicas voltadas à pessoa idosa, a literatura avançando no número de publicações nos últimos anos, assim como as pessoas vão se conscientizando, aos poucos, sobre esse processo.

OK, MAS… É MAIS UM ADULTO OU NÃO É?

E a resposta é… NÃO. Já posso imaginar a interrogação em cima da cabeça de vocês e um grande “Oi? Como assim?”, mas vamos com calma. Obviamente, uma pessoa idosa tem os direitos adquiridos como qualquer outro cidadão ao alcançar a maioridade. Porém, o que aqui quero dizer é que a velhice é considerada uma FASE DO DESENVOLVIMENTO. Logo, ela trará características próprias que irá diferenciá-la da fase adulta. Isso mesmo, o sujeito ainda está em constante aprendizado. E isso deve ser o primeiro entendimento de um terapeuta ao atender um idoso.

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Perdas?

A ordem é: não precisa esperar só a morte chegar. Mas deve-se compreender que a velhice é um período marcado por perdas das mais diversas ordens, e aqui vale ressaltar:

  • PERDAS BIOLÓGICAS – mesmo que varie de pessoa para pessoa, memória, atenção, percepção e etc. sofrerão declínios. Os idosos tendem a ter comportamentos cada vez mais cristalizados devido à diminuição da plasticidade cerebral. Claro que, não se pode perder de vista que essa plasticidade dependerá da maneira que foi criado ao longo da vida. Aqui, também, cita-se o surgimento de doenças crônicas e demais comorbidades.
  • PERDA SOCIAL – Chega-se o momento em que o ninho se encontra vazio. Os filhos saem de casa, o cônjuge ou outro familiar vêm a falecer, os amigos também falecem, divórcios acontecem e é comum surgir sentimentos de carência e solidão. Lidar com a perda do outro é ter que se deparar com a própria finitude e isso pode ser conflitante para o idoso. Além de, muitas vezes, precisar lidar com a inversão de papeis.
  • PERDA AMBIENTAL – Diretamente ligado à capacidade de produção do indivíduo. Por muito tempo foi-se exigido pelo ambiente que este sujeito crescesse, produzisse, etc. e, de repente, essas exigências se tornam cada vez menores, o que pode ser desestruturante. Nesse contexto, pode-se citar a aposentadoria e as perdas dos ciclos sociais a que pertencia, isso porque o trabalho é visto como fator de inserção social, o que possibilita construir relações sólidas, além da própria identidade.

E AGORA, JOSÉ? E AGORA, VOCÊ?

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Como sabemos, não há fórmula mágica na Psicologia, mas podemos observar que muitas demandas não nos são tão estranhas assim. O que varia é o público que procura, por isso é importante observar as particularidades que ele apresenta. Existem separações conjugais, a morte de um ente, filhos e as mais diversas histórias, aposentadoria, depressão, tentativas de suicídio, sexualidade, problemas financeiros etc. etc. etc. Algumas demandas se arrastam de fases do desenvolvimento anteriores e precisamos estar preparados para ouvir histórias de uma vida inteira.

Dicas para o apoio psicológico a velhice

No mais, segue aquelas dicas amigas para lidar com um paciente idoso, que marcou, compareceu e já está na recepção do consultório aguardando o atendimento:

  • EMPATIA – ao entrar no consultório, estamos por, para e com o paciente. Anotações são importantes, mas não substitui um ouvido atento à história contada. Precisamos estar conectados com ele e demonstrar real interesse pode ser valioso para construção de vínculos. A valorização da fala é fundamental.
  • ATENÇÃO – como citado, os aspectos cognitivos podem estar em declínio, o que vai exigir esforço para compreender os acontecimentos, assim como nem sempre ele se lembrará de algum fato ocorrido. Isso não é recalque, muito menos resistência. Os detalhes, realmente, ficam escassos. São muitas mudanças de perdas e ganhos ocorrendo ao mesmo tempo.
  • ESTRATÉGIA – muitas vezes precisaremos ser criativos para extrair conteúdos do paciente, principalmente aqueles que possuem algum declínio evidente. Nem sempre eles se enquadrarão somente no método tradicional de terapia pela fala. Por outro lado, é preciso estar atento caso surja a necessidade de transpor uma regra contratada entre ambos no início da terapia para não se torne costume, além de ser importante para trabalhar os limites na terapia.
  • PREPARO – é preciso estar preparado para falar sobre perdas e morte. Em algum momento esses assuntos irão aparecer, mesmo não sendo um foco central, encarando-os como um processo natural da vida.

Dicas adicionais

  • CUIDADO COM A FALA – o idoso é um outro e este merece respeito. Não se devem utilizar falas infantilizadas ou palavras demais no diminutivo, bem como é necessário referir-se a ele com confiança/segurança. Ele compreende o que é falado, não precisa ter receio ao referir-se ao mesmo. Muitas vezes a firmeza do terapeuta ao tratar o outro como igual pode o fazer adentrar nesta posição, não permanecendo na zona de conforto ou de passividade.
  • ENCORAJAMENTO – é preciso levá-lo a compreender para além das perdas. Ainda é possível relacionar-se amorosamente, realizar um sonho, aprender algo novo, agregar pessoas à família (não perde-se o filho, agrega-se nora, genro, netos, etc.). Atividades em grupo podem vir a ajudar na socialização desse idoso. A auto estima não pode deixar de ser trabalhada.
  • PACIÊNCIA – histórias podem ser, por vezes, repetidas. Nem sempre é bom impedi-lo de fazer. Os resultados do processo terapêutico em sua maioria são poucos, lentos ou podem não serem vistos enquanto o sujeito estiver em terapia. Mas, com certeza, o passar do tempo o ajudará a compreender o que você disse. Não se tem garantia de que as experiências de mudanças darão certas, mas devemos convidá-lo mesmo assim a experienciar o novo. Só assim ele poderá encontrar um novo sentido para viver.

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E por fim…

  • FOCO – não perder de vista que aqui não se busca uma cura definitiva. Mas em sua maioria, sugere-se uma terapia de apoio, onde serviremos de suporte para direcioná-lo a uma melhor qualidade de vida. A beleza do atendimento do idoso nem sempre é o objetivo final alcançado. E sim as pequenas vitórias conquistadas no caminho, no qual devem ser valorizadas.
  • TRABALHO MULTI – para o pleno desenvolvimento deste idoso, o trabalho deve ser conjunto com a família e demais pessoas significativas para ele. Assim poderá inferir que, ainda que haja perdas, ele não estará sozinho. Também cabe a nós, profissionais, estarmos dispostos a ter contato com demais profissionais que este idoso freqüenta, caso necessário.

PRECISAMOS FALAR SOBRE A VELHICE

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Sei que algumas coisas parecem óbvias para nós. Mas aqui vale a máxima de que o óbvio também precisa ser dito. Isso ao relembrarmos o manejo terapêutico, mas também servem para os pacientes. Ainda que saibamos acerca do processo e fase a que vem enfrentando, é preciso que ele fale sobre ela. É a partir disso que a vivência poderá ser ressignificada.

 

 

 


Débora Porto é Psicóloga Clínica (CRP – 01/20497), atende em Brasília (DF).


P.S.: Se você é Psicóloga(o) conheça o Caderno do Eu, uma ótima ferramenta de escrita terapêutica.

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